Paulo de Figueiredo Parreiras Horta
Especialidade:
Acadêmico Patrono
Cadeira: 15
Mini currículo:
Louvável em todos os sentidos a proposta do nosso prezado Presidente Carlos Tortelly Costa para que os componentes desta Douta Academia apresentassem os dados biográficos dos seus respectivos patronos. Nem mesmo, como agora, quando faltam ao apresentador dotes oratórios e qualidades de conferencista mas que se vê amparado num pensamento lapidar do Mestre Aloysio de Castro:
- "Nunca considerei por inúteis as
palavras que consagramos aos mortos. Deles, da sua lembrança, da sua lição e do
seu exemplo, nos vem o melhor da vida: a ausência pode também ser presença". Assim encorajado, tenho a elevada honra de vos apresentar os traços biográficos
do Professor Paulo de Figueiredo Parreiras Horta, patrono da Cadeira n° 15, que
orgulhosamente ocupo nesta Academia.
Formado em Medicina pela Faculdade de
Medicina do Rio de Janeiro, quando apenas chegava aos 21 anos de idade, foi
tudo a quanto poderia aspirar um homem de valor na carreira que abraçara:
pesquisador emérito, extraordinária operosidade científica sempre em foco,
excelente atividade administrativa, professor consagrado, criador nesta cidade
de notável escola dermatológica.
Mas, senhores Acadêmicos, antes de
entrar propriamente na biografia de meu Patrono, quero cumprir o dever de
agradecer a generosidade dos que escolheram o meu nome para ficar em tão
ilustre companhia, já que sem notória bagagem científica tenho sempre apenas o desejo
do trabalho digno de probidade e lealdade.
É hora também de uma homenagem àquele
que me estimulou ao estudo da Dermatologia, especialidade do meu Patrono, e que
me preparou para a vida profissional e cívica. Ele que foi grande mestre na
especialidade, de extraordinário prestígio entre os discípulos, clínico
generoso e abnegado, que "soube formar" e criar uma nobre família, que
prestigiou o ideal do homem, do médico, do professor e do sábio. Refiro-me ao
meu pai espiritual, o Professor Armínio Fraga, nome que pronuncio com o maior
respeito e imensa saudade.
Paulo de Figueiredo Parreiras Horta
nasceu na cidade do Rio de Janeiro em 24 de janeiro de 1884. Foram seus pais o
Dr. José Freire Parreiras Horta e Dona Paula de Toledo Figueiredo Horta.
Farmacêutico em 1903, dois anos depois terminava o curso médico (1905) pela Faculdade de Medicina do Rio de Janeiro, tendo defendido tese sobre "Septicemias Hemorrágicas?, aprovada com distinção. Esteve durante 1 ano trabalhando na cidade de São João Del Rey, Estado de Minas Gerais. Em 1907 seguiu para a Europa em busca de aperfeiçoamento, lá percorrendo os diversos Centros onde melhores luzes pudesse colher para o seu espírito investigador. Trabalhou mais intensamente no Instituto Pasteur, em Paris, no laboratório de Marchbox, e depois no Dispensário Emílio Loubet sob a direção de Somel e Bernheim, estudiosos do problema da tuberculose humana. Voltando ao Brasil, inicia intensa atividade científica que se desdobra pelos campos da pesquisa, do ensino e da administração. Em 1909 ingressou no Instituto Oswaldo Cruz (Manguinhos na época) como assistente interino, passando logo depois a assistente contratado, ficando encarregado da Seção de Micologia e sobretudo do preparo do soro e da vacina contra a peste.
Nesse período Parreiras
Horta começa a publicação de trabalhos inéditos, sobretudo em Micologia.
Descreveu de maneira magistral o parasito da piedra negra, que recebeu de
Brumpt o nome de Thrichosporum Hortai, mudado depois para Piedraia Hortae, por
Fonseca e Leão. Estudou a "Tinha Negra Palmar" e outras dermatomicoses, do
ponto de vista clínico e micológico. Em 1911 e princípio de 1912 estudou a
epizootia de raiva em Santa Catarina, apresentando ao Professor Oswaldo Cruz o
plano para sua erradicação o qual, aceito, foi enviado ao Ministério da Agricultura,
sendo aplicado com êxito total.
De 1912 a 1915 dirigiu a Seção
Veterinária do Ministério da Agricultura, onde, ao lado de excelentes trabalhos
técnicos e de pesquisas importantes, foram produzidos produtos biológicos de
que carecia o Ministério. A sua contribuição científica realizada no campo da
medicina veterinária foi também extraordinária. Descreveu um novo parasita da
"tristeza", a que deu o nome de Babesia Australe; a descrição e o isolamento de
um micrococo que se encontra no tecido ósseo dos animais atacados de
osteoporose ou cara inchada, a que deu o nome de "micrococcus osteoporosi". Fez
estudos sobre a imunização dos bovídeos contra a "tristeza". Verificou os
resultados nulos da vacina Pasteur contra o carbúnculo, no Brasil. Em 1917 foi
organizada a Escola Superior de Agricultura e Medicina Veterinária, sendo o
eminente Mestre nomeado para a Cadeira de Microbiologia.
Em 1º de agosto de 1918, aos 34 anos de
idade, foi recebido como Membro Titular da Academia Nacional de Medicina, sendo
saudado pelo Acadêmico Werneck Machado, estando na Presidência da Academia o
Professor Miguel Couto. Transcrevo, pelo seu significado, as palavras do
Professor Miguel Couto ao se dirigir ao jovem empossado: - "Senhor Professor
Parreiras Horta; os velhos professores vão adquirindo com o tempo uma certa
segurança em determinadas espécies de prognósticos. Por exemplo: com o hábito
de ouvir os alunos e os ir distinguindo, acabam por vaticinar, dentre tantos
discípulos, aqueles que vão ser mestres.
Nesta espécie de prognóstico chega-se a
ser profeta. Não me admirei, portanto, quando vos vi professor; não me admiro,
agora, quando vos vejo Acadêmico.
A Academia me incumbe de cingir ao vosso
peito as suas insígnias e de dizer-vos que ela tudo espera do vosso grande
concurso."
E a profecia do Mestre teve total
realização. Inúmeros trabalhos publicados honram as páginas dos Anais da
Academia Nacional de Medicina, da Policlínica Geral do Rio de Janeiro, do
Brasil Médico, da Revista de Veterinária e Zootécnica, da Sociedade Brasileira
de Dermatologia e de numerosas revistas estrangeiras. Uma referência especial
aos trabalhos científicos realizados quando chefiou a equipe de médicos da
Missão Médica Brasileira, trabalhando nos laboratórios e hospitais de
Montpelier, sede de uma das grandes regiões militares da França durante a
Grande Guerra. Condecorado pelo Governo Francês com a Cruz de Cavalheiro da
Legião de Honra. Em 1930 foi promovido a Oficial da Legião de Honra.
Representou o Brasil em numerosos
Congressos no exterior. Foi distinguido como membro correspondente de um grande
número de Academias Científicas estrangeiras.
Depois de exercer o magistério em várias
Escolas no Rio de Janeiro, em 14 de março de 1930 foi indicado para dirigir a
Cadeira de Clínica Dermatológica e Sifilográfica da Faculdade Fluminense de
Medicina, cargo que ocupou até 24 de janeiro de 1954, quando completou 70 anos
de idade. Posteriormente foi-lhe concedido o título de Professor Emérito.
De sua atuação no magistério universitário fluminense temos o testemunho pessoal de muitos Acadêmicos que honram esta casa, mas refulge a criação por Parreiras Horta da escola dermatológica fluminense, donde têm saído tantos luminares que ocupam hoje lugares destacados no ensino, na clínica e na atividade administrativa ligada à especialidade.
Como disse um dos seus biógrafos, o Acadêmico Renê Laclete, também seu sucessor na Academia Nacional de Medicina, "o esquecimento não envolverá seu nome. Ele viverá nos tratados da especialidade, onde perdurarão seus trabalhos, mormente os de Micologia, no Serviço de Dermatologia e Sifilografia da Policlínica do Rio de Janeiro, sucedido pelo eminente Professor Francisco Eduardo Rabello, no Instituo Parreiras Horta de Sergipe, no Ministério da Agricultura, na Faculdade Fluminense de Medicina, onde o substituiu, com grande brilho, seu discípulo e amigo Professor Rubem Azulay, enfim, em todos os lugares onde deu o brilho da sua cultura, da sua imensa capacidade de pesquisador e de seu extraordinário valor como professor". Nesta Casa, Patrono da Cadeira nº 15, que tenho a honra de ocupar, sua memória será sempre cultivada e o seu exemplo seguido com amor e reverência.
Biografia escrita pelo Acadêmico, da
Cadeira nº 15, Everardo Marques dos Santos