Eduardo Chapot-Prevost




Titular em 25/09/2021

Especialidade:

Acadêmico Patrono

Cadeira: 60

Patrono:


Mini currículo:

Eduardo Chapot-Prevost, nasceu no Rio de Janeiro em 25 de junho de 1864, filho de Dr. Luiz Chapot-Prevost e D. Loise Chapot-Prevost.

Apesar da ascendência francesa, que lhe deu traços fisionômicos e nome Chapot-Prevost, o fluminense de Cantagalo deu ao brasil a glória do pioneirismo em cirurgia toraco-xifópaga.

De porte majestoso, fisionomia descontraída, sempre um sorriso simpático, seriedade jovial, Chapot-Prevost encerrava em si, desde cedo, tendências de uma personalidade marcante que confirmaria tempos depois. Dominava facilmente os idiomas: Português, Francês, Alemão, Espanhol, Sueco, Dinamarquês e Inglês.

Na jovialidade dos seus vinte e um anos, 1885, colava grau na Faculdade de Medicina do Rio de Janeiro e, por questões estudantis, defende, na Bahia, a sua tese "Formas Clínicas do Puerperismo Infeccioso e seu Tratamento".

No ano seguinte, 1886, exerceu, interinamente, a função de adjunto de Anatomia Descritiva, na Faculdade de Medicina do Rio de Janeiro, tornando-se regente da mesma em 1889, época em que teve como discípulos os estudantes ilustres Oswaldo Cruz e Carlos Chagas.

Em 1890, pleiteando a cadeira de Histologia na mesma Escola, apresenta tese: "Pesquisas Histológicas Sobre Inervação das Vias Biliares e Extra-Hepáticas", e evidencia investigações quanto a mamíferos e vertebrados, experiências clássicas com novos processos tecendo de maneira original, considerações sobre as vias biliares do feto humano, logrando êxito sobre concorrente Dr. Pedro Severiano Magalhães, nome dos mais conhecidos na medicina de então.

Como regente dessa cadeira, deu nova dimensão ao estudo da histologia, transformando-o em curso independente.

Notável também como sanitarista, desenvolveu trabalhos de pesquisa e ação nesse campo.

Por designação do Governo, tomou parte nas comissões de estudos da cólera no vale do Paraíba, da peste bubônica e tuberculose no Rio de Janeiro. Acompanhou Domingos Freire em viagem à Alemanha para melhor aclarar suas conclusões a respeito das experiências de Koch, sobre a cura da tuberculose, sendo  designado ainda nesse mesmo ano para estudar carbúnculos no gado em Santa Cruz.

Desses estudos e de observações feitas a partir de laboratório que montou em sua própria residência Chapot-Prevost elaborou os trabalhos: "A Bouba e a Sífilis" (1892), "O Carbúnculo no Matadouro" (1900) e nota sobre a simplificação na confecção das Placas de Agar-Agar.

Em sessão da Academia Nacional de Medicina, Chapot-Prevost ainda em franca atividade como sanitarista tomou conhecimento do caso Maria e Rosalina, irmãs xifópagas, através de um comunicado em 3 de agosto de 1899, feito pelo Dr. Álvaro Ramos, um dos maiores cirurgiões da época.

Nesse comunicado são relatadas experiências que o Dr. Álvaro Ramos tivera com as irmãs xifópagas, nascidas de parto normal em Cachoeiro do Itapemirim, Espírito Santo, em 21 de maio de 1893, começando a andar aos cinco anos e meio de idade, trazidas para o Rio de Janeiro pela mãe adotiva, acompanhadas pelo Dr. Azevedo Pinheiro.

Álvaro Ramos começa se utilizando de conclusões a partir de métodos radiológicos recém-implantados no Brasil que, apesar da precariedade inicial, esclareciam a independência orgânica das duas meninas. Dizia o laudo do Dr. Camilo da Fonseca, radiologista:

"Segundo mostra o simples exame das reproduções em zinco gravura, há completa separação dos esqueletos, cujas costelas são nitidamente terminadas. Além disso, demonstram também a independência dos órgãos respiratórios cujo funcionamento isolado já anteriormente havia sido verificado pela radioscopia. Em uma das radiografias (n° 1) vê-se o ligamento atravessado de cima a baixo por uma linha clara e fina, que parece demonstrar não ser o septo constituído de substância compacta. Na outra radiografia (n 2), o grosso intestino da menina Rosalina é algo tanto visível, o que faz supor a independência dos tubos intestinais de ambas. Esta suspeita recebeu notável confirmação em outra prova ulteriormente executada pelo processo Roux e Balthazard. Apesar de ter sido administrada apenas pequena porção de substância medicamentosa, o clichê e as provas positivas mostraram os estômagos e intestinos de Rosalina e Maria assinalados por irregulares e escuros depósitos de subnitrato de bismuto, aderente às paredes gastro-duodenais. Por esta prova radiográfica, facilmente se deduz a independência dos aparelhos digestivos.

Lançando mão de um artifício, para atestar o mais possível os dois tóraces, a radiografia n° 2 mostra ainda a distensão completa do ligamento, que aparece transparente em todo o seu trajeto, denotando, à simples inspeção, ausência de qualquer continuidade visceral".

Mediante o laudo recebido, decide-se Àlvaro Ramos pela laparotomia exploradora, que realiza em 23 de julho de 1899, quando cerca-se, para salvar sua responsabilidade, de outros cirurgiões em evidência, temendo uma hemorragia das meninas. Receio que aumenta com a exploração, ao encontrar larga união dos dois fígados. Temendo ainda ser insuficiente a cloroformização aplicada nas pacientes, julga-as inoperáveis, justificando desse modo o seu desligamento do caso apenas com a laparotomia exploradora, conclusão que nos interessa para bem determinar, logo a seguir, a ousadia do nosso ilustre Chapot-Prevost.

Mostrando segurança e clareza de visão dentro dos seus âmbitos médicos, Chapot-Prevost contesta seu colega dizendo ser possível a realização da cirurgia, com a certeza de poder combater uma hemorragia, ou mais. sem perigo de ocorrência da mesma, pois utilizaria um método próprio seu, a ser revelado posteriormente, mas de eficiência segura, a partir de experiências que vinha realizando com animais inferiores.

Tomando aos seus cuidados as irmãs xifópagas em outubro, Chapot-Prevost fez durante vários meses um longo preparo das pacientes desde a embriologia até o problema social, quando concluiu sobre a independência das mesmas, observando em Maria maior predisposição para enfermidade e também diferenças de pulsação. Na véspera da cirurgia reuniu seus auxiliares expondo seu método que seria testado com as irmãs teste, aliás, que estava com absoluta certeza do sucesso a alcançar. O método Prevost que aparece em pormenores em obra publicada na França, consistia em urna "transfixação do fígado através da parede costal, servindo-se para esse fim, de uma agulha trocater curva, conduzindo no seu interior um fio de seda trançado, que deveria comprimir o fígado contra as falsas costelas a fim de não dilacerá-lo".

A Casa de Saúde São Sebastião, dirigida então pelo Dr. Simões Correia, foi o palco da delicada cirurgia e cabe salientar o cuidado asséptico desenvolvido pela equipe. Naquela época eram limitados os processos da assepsia, entretanto Prevost fez o mais rígido preparo, que incluía desde a apurada imunização da sala, até banhos de lisol do cirurgião e seus auxiliares, sem esquecer, evidentemente, todo o instrumental a ser utilizado na cirurgia, e de forma especial fez construir uma mesa dupla que se separaria para cada paciente, após o ato cirúrgico.

Treze cirurgiões de grande vulto formaram a equipe médica encabeçada pelo Dr. Chapot-Prevost: Paulino Werneck; Antônio de Azevedo Monteiro; Ernani Finto; Dias Barros; Figueiredo Rodrigues; Paula Rodrigues; Gonçalves Lopes; José de Azevedo Pinheiro; José Chapot; Amaro Campello; Jonathas Campello; Silvio Muniz e Chardinal.

Em 30 de maio de 1900 às nove da manhã iniciou-se a cirurgia, com cloroformização das pacientes aos cuidados dos anestesistas Paulino Werneck e Azevedo Monteiro.

Às nove e meia o Professor Chapot atingia o órgão hepático, e, fazendo exploração do campo cirúrgico encontrou além da ponte prevista, aderência da pleura e do pericárdio. A seguir, utilizando o seu método de pesquisa, realizou o tempo principal da cirurgia. Às dez horas e quarenta minutos separaram-se as mesas, encerrando-se às onze e meia a cirurgia, sob um clima de absoluta segurança. O pós-operatório dá continuidade a esse clima de êxito, o que em muito foi auxiliado pela presença constante do Professor Prevost e seu auxiliares se revezando, continuadamente, incluindo até mesmo, a assistência de sua esposa, Mme Laun Caminhoá Chapot-Prevost.

Após 134 horas da cirurgia, Maria morre vítima de pleurocardite, mas Rosalina segue em curto período para o restabelecimento, para a glória da cirurgia brasileira, marcando o pioneirismo nos seguintes aspectos:

- primeira cirurgia toraco-xifópaga;

- primeira vez que se secciona dois fígados com êxito de hemostasia perfeita para ambos;

- primeiro corte e sutura de dois pericárdios;

- primeira abertura de cavidade serosa com secção de fígado.

Não poderíamos deixar de mencionar o quanto foi alvo de controvérsias o feito do eminente Prof. Prevost, entre os seus próprios colegas e a imprensa da época levando-o a responder eloquente e brilhantemente inquérito imposto pela situação criada, que para isso lançou mão do Instituto Médico Legal, para a autópsia de Maria, que obteve como conclusões da equipe liderada pelo renomado Dr. Barata Ribeiro:

"1ª - Não se pode admitir em teratologia o gênero de monstruosidade de dupla paralela toraco-xifópaga;

2ª - Que Rosalina-Maria pertencia ao grupo monofaliano gênero xifópago perfeitamente idêntico aos tipos de tal monstruosidade registrados e estudados cientificamente por autópsias mais ou menos perfeitas, nos irmãos Siameses e nas gêmeas, Maria-Adélia, menos os prolongamentos peritoniais em forma de sacos observados nos primeiros, o que ficou demonstrado não só pela observação do Dr. Álvaro Ramos como pela observação do Professor Chapot-Prevost, e pela autópsia de Maria;

3ª - Que em tais tipos teratológicos de acordo com as condições teratogênicas, que presidem a formação desse gênero de monstruosidade, com a opinião de todos os teratologistas ou todos os teutogomistas e com a observação do caso por ocasião da operação do Dr. Alvaro Ramos, não se podia dar a fusão dos dois pericárdios nem o prolongamento das pleuras fora das respectivas cavidades constituindo elementos da pleura que unia as partes ou corpos componentes do monstro;

4ª - Que, outrossim, não poderia ter ocorrido nem apoiada de desenvolvimento do diafragma, nem a fusão deles em um só, o que não só se conclui das próprias condições teratogênicas que presidiram a evolução da monstruosidade como da observação de Dr. Álvaro Ramos que anuncia o momento em que cortara aquele músculo ao proceder a laparotomia exploradora realizada neste caso, como aquele em que de novo o fixara a sua natural inserção, e da observação do Professor Chapot-Prevost que nem diz se o incisou, nem quando ou como o incisou, nem lhe fixou ou não, nem o ponto em que o fixou;

5ª - Que em tais condições e atentos aos progressos da cirurgia hepato-abdominal, o caso de Rosalinda-Maria era perfeitamente operável podendo esperar-se da operação o mais completo resultado visto como tratar-se-ia de urna laparotomia sem complicações e da incisão de um fígado completamente são;

6ª - Que tomadas em conta as condições teratogênicas deste fato e as observações anteriores, a incisão do pericárdio de Maria, foi um acidente operatório imprevista e involuntário como foi o da pleura;

7ª - Que não se fez diagnóstico da moléstia a que sucumbiu Maria, moléstia diagnosticável e relevada pela autópsia, e nem se lhe aplicou o tratamento aconselhado em tais condições, o que no estado da ciência - falta gravíssima".

Após essas conclusões que foram encaminhadas à Academia Nacional de Medicina, muitas foram as honras que se passou a prestas ao Professor Chapot-Prevost, que expôs com detalhes do seu método no Congresso de Cirurgia, realizado no antigo Pedagógico do Rio de Janeiro, sendo alvo de grandes homenagens.

O Congresso Nacional concede-lhe uma subvenção para o Congresso de Cirurgia, em Berlim e Paris, para onde segue, levando consigo Rosalina, para conhecimento e admiração do resto do mundo.

Na Academia de Paris expõe, durante duas horas, uma obra sobre os xifópagos em geral, Cirurgie dos Teratopages, com merecidos elogios no prefácio de Terrier, professor de cirurgia em grande evidência na época.

De volta ao Brasil dá continuidade aos estudos publicando, em 1902, o trabalho "Xifotoracópago Operado" e em 1905 "Novo Toracópago Vivo".

Reafirmando sua glória, neste mesmo ano, 1905, torna-se Membro Honorário da Academia Nacional Medicina sem a formalidade habitual do concurso que precede a admissão. A mesma Academia vai fazer soar essa homenagem tempos depois, já nos nossos dias, em 1963, criando a cadeira de n° 81, patronímica de Chapot-Prevost, atualmente ocupada pelo Dr. Eduardo Moacyr Krieger.

Chapot-Prevost sempre na incansável dedicação à medicina, passa a dividir-se entre a Clínica Médica e a Cirurgia, sem se afastar das constantes pesquisas no campo da histologia, que o leva à fadiga, facilitando o seu enfraquecimento físico. Disso decorre uma enfermidade grave de tratamento ainda obscuro que culmina com sua morte em 14 de outubro de 1907, já viúvo, deixando um filho de quatro anos.

Jornais da época noticiaram o funeral que se revestiu de grande imponência, sendo extraordinariamente concorrido por todas as classes sociais.

Dr. Eduardo Chapot-Prevost, logrou engrandecer o país em que nasceu, a profissão que abraçou, contribuindo para o progresso humano e científico.

Aqui seguem algumas opiniões sobre ele:

1. ALOYSIO DE CASTRO: "Não conheceu esta Faculdade mestre mais exímio no dever, mais devotado à missão da cátedra, presidindo ele próprio, com infalível pontualidade, os trabalhos técnicos de seus alunos. Numa época em que, em nossas escolas superiores, a prova da habilitação era exame a rigor, ao qual ninguém se atrevia sem trazer o selo das vigílias, esse exame na cadeira de Chapot-Prevost empalidecia os estudantes; mas todos sabiam que aquele juiz tinha a justiça sem diferenças, em peso e medida".

2. Refere ALVES MOTTA: "Na vertigem dos dias que vivemos, verificamos o desconhecimento cada vez maior do passado, mesmo recente, por parte das novas gerações, e o injusto olvido, em que isso, deixa mergulhados brasileiros que nos legaram tanto do presente e, através de lutas e trabalhos, formularam soluções para muitos de nossos males".

 

 

OBS.: É PORTANTO, JUSTO CITAR, MAIS UMA VEZ, A PENA BRILHANTE DE ALOYSIO DE CASTRO: "Nunca considerei por inúteis as palavras consagradas aos mortos. Deles, da sua lembrança, da sua lição e do seu exemplo, nos vem o melhor da vida: A AUSÊNCIA PODE TAMBÉM SER PRESENÇA".

 

O CÉU VIBROU?

ESSA TRANSIÇÃO ENTRE CÉU E TERRA É ASSIM.

 

Biografia escrita pelo Acadêmico Fundador da Cadeira nº 60 Wanderley Coutinho Valladares.


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