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 Cadeira nº 21 - Almir Barbosa Guimarães
 
Patrono
 
 

Em 11 de dezembro de 1911, na Rua Felipe Camarão, no Maracanã, a família do jovem Oficial de Engenharia do Exercito Brasileiro, constituída por Manoel Antunes de Castro Guimarães Júnior e Julieta Barbosa Guimarães, era aumentada com o nascimento de seu segundo filho que receberia na Pia Batismal, o nome de Almir Barbosa Guimarães.

Os seus primeiros estudos foram em casa, e aos 10 anos, a família transferiu-se para Niterói, onde o engenheiro Castro Guimarães iria exercer importante cargo na Administração Pública do Governo Sodré. Nessa fase, Alice Barbosa Guimarães e seu irmão Almir ingressaram no Externato Vilares. Terminado seu Curso Primário transferiu-se paras o Colégio Brasil, onde fez os preparatórios.

Em 1929 ingressa na Faculdade Fluminense de Medicina, escola médica recém-criada em Niterói e que se constituiu em um marco cultural da Velha Província.

Durante o Curso Médico já se faz sentir a força do Minuano que trazia de seus caracteres genéticos postos à prova nos difíceis tempos da Revolução de 30. Identifica-se com a cirurgia e passa a trabalhar com Ernane Faria Alves, Mestre da Cirurgia em nossa terra, que viria formar muitos outros eminentes cirurgiões.

Em 1935, termina o Curso Médico e inicia suas atividades profissionais em Niterói, passando a cirurgião do Pronto Socorro e Assistente da Cadeira de Clínica Cirúrgica da Faculdade de Medicina, regida por Ernane Alves.

Corria o ano de 1937, era o Brasil agitado por paixões políticas, agora direitistas, dois anos antes, esquerdistas, quando um jovem cavaleiro que ignorava as vicissitudes e os males da política, como também, o poder das armas montadas, mas, apenas se deleitava com o "upa-upa" de sua montada de travesseiros e numa passarinhada mais violenta de suas painas é atirado a dois palmos da cama, e a sua clavícula esquerda, de 3 anos de idade, sofre uma lesão em galho verde. Era domingo, pai e mãe aflitos carregavam com o primogênito para o Pronto Socorro Municipal de Niterói, no Jardim São João, Cirurgião de plantão: Almir Barbosa Guimarães. E foi assim, como paciente, que conheci o meu primo mestre de cirurgia, grande amigo e hoje Patrono da cadeira 21 nesta Casa.

Continua, mesmo depois de formado, membro convicto e abnegado de uma espécie, que foi frequente, e que hoje parece em extinção, dos ratos de hospital. Com seu espírito alegre, sempre com um dito de esperança para aqueles que o buscavam em seus sofrimentos físicos e/ou morais, não sabendo em sua função distinguir classes sociais e níveis econômicos daqueles a quem atendia.

Em vários aspectos sempre lhe é fácil distinguir características de ineditismo e pioneirismo. Dentre esses aspectos ressaltar uma grande fé na juventude e alguns episódios de sua vida traduzem este seu pensar. Identificava muito à juventude, a disciplina, a criatividade e a execução daquilo que julgava correto, imaginava que os caracteres já formados eram pouco ou nada sensíveis às mutações. Prestigiou sempre aqueles que trabalhavam com dignidade sem visar interesses imediatos, e são exemplos deste modo de ser, estes dois episódios.

Interno de plantão do Hospital São João Batista é chamado à portaria, onde uma autoridade em nível de Secretário do Governo Estadual deseja entrar no hospital, fora de hora de visita, a fim de estar com paciente de suas relações. Informado pelo interno da impossibilidade de tal, por ser contra o regulamento do hospital, contra argumenta apresentar-se como médico. Em vista da segunda exposição o interno lhe diz que, como médico, poderia ele entrar no hospital. A autoridade, no entanto, retorna a tônica de seu cargo administrativo e diz ao estudante que ele entrará, não como médico, mas como autoridade que é. Nesse momento, o plantonista fecha a porta e lhe nega a passagem em definitivo.

No dia seguinte, tendo como cenário o Gabinete do Prefeito de Niterói, presentes algumas autoridades, inclusive o pivô do incidente da véspera e também Almir Guimarães, na ocasião respondendo pela Direção do Hospital, o assunto é ventilado e o Secretário impedido de entrar, reclama providências punitivas ao Interno. Após ouvir todo o libelo acusatório, Almir levanta-se e diz que irá imediatamente ao hospital a fim de abraçar e cumprimentar o Interno por sua eficiência em cumprir os regulamentos do Hospital. E com aquele seu linguajar tão peculiar e espontâneo, do qual foi também um inovador, saudou as progenitoras dos respectivos envolvidos e envolventes do lado oposto da sua razão com adjetivos qualificativos dos mais conhecidos e ouvidos hoje, em nossos teatros.

Sem dúvida alguma o seu linguajar também foi pioneiro. Lembro-me bem que pouco tempo depois de ter sido levado para trabalhar na enfermaria do 2º Serviço de Cirurgia de Mulheres do Hospital Antônio Pedro em 1953, pelas mãos de meu querido tio, a quem Almir chamava carinhosamente de "Carlinhos Bexiga", o Dr. Almir chamou-me e disse: Hoje vamos visitar um doente particular, em domicílio e ensinou-me as primeiras regras éticas da visita médica, como também, teceu comentários sobre a indumentária que o médico deveria usar nessas ocasiões. Vesti o meu invicto e solitário terno, que só perdeu em tempo de uso para um famoso terno marrom que serviu durante vinte anos, a dois ilustres cirurgiões desta cidade, Professor Jairo Pombo do Amaral. Que o cedeu por doação de velhice ao Dr. Flávio Abramo Pies, e na hora marcada fomos a uma residência da Rua Cinco de julho, do lado esquerdo de que  sobe. 

Chegava Almir todo de branco e eu a uns dois passos atrás, quando ganhamos a varanda, a porta da sala se abriu e um vulto feminino, muito terno para mim, recebeu-nos com toda a cordialidade. A cordialidade e a intimidade do diálogo foi tão grande, que mesmo não sendo um pudico, não pude evitar a orelha vermelha. Dei tratos à bola então para entender todas aquelas regras éticas que carinhosamente havia me transmitido. Levei algum tempo para entende-las. Era a forma rude, sincera e simples do Minuano. Até hoje a mesma recepcionista tem comigo o mesmo carinhoso diálogo que tinha com o Almir, decorridos 24 anos deste episódio.

Tive o privilégio, a honra e a velocidade de ter como Patrono da minha Cadeira, ALMIR BARBOSA GUIMARÃES. Talvez isto se deva, na ocasião, 260 km. E a um DDD ainda não inaugurado, e seria outro Acadêmico, Décio Lobo Azevedo, a quem caberia dizer estas palavras, e tenho a certeza que também Décio trilhava no perfil biográfico de Almir a sua nota dominante, que foi sem dúvida alguma, o seu calor humano. Tão traduzido neste episódio que foi ele protagonista juntamente com Almir.

Era na ocasião, meados dos anos 40, Décio Lobo de Azevedo, interno do Hospital São João Batista, rato de hospital, estudante pobre, pleiteava uma vaga de Interno-residente no hospital. Era praxe que os internos residentes fossem dos últimos anos, e na ocasião deu-se uma vaga. Décio não estava no final do curso e na sua frente poderiam aparecer outros pretendentes, no entanto, era de fato reconhecido pelos então Internos -residentes, já do quadro do hospital o lugar por merecimento ao nosso Acadêmico. Quando o assunto foi ventilado com o Almir sobre a possibilidade da vaga ser ocupada por outro, disse Almir a Décio: Você será o nomeado por que tem demonstrado e feito por merece-lo, e quando a tradição foi invocada na forma do "Advogado do Diabo", e se esta vingasse significaria a saída de Décio, disse simplesmente Almir: "Ô seu filho da ...", eu saio com você.

Passaríamos horas e mesmo dias rememorando aspectos do cotidiano que vivemos juntos, pinças jogadas no chão, xingamentos nos auxiliares de cirurgia, a terrível exigência do gorro e da máscara no plantão do Pronto Socorro, que aliás era um indício da presença de Almir no hospital quando todos os internos e médicos estavam de gorro, e no centro cirúrgico, de gorro e máscara.

É sabido que todos temos uma fase que procuramos imitar o nosso mestre, e isso se faz notar mais ainda quando o sistema de aprendizado é mais artesanal, sem dúvida alguma, este foi o tipo do meu aprendizado com ele. Convivemos íntima e profundamente durante 6 anos e sua voz e modo de falar ao telefone eu imitava muito bem, e utilizava isso em proveito próprio para telefonar para Conceição, na Secretaria da Faculdade, para saber com antecedência os resultados das provas minhas e dos meus colegas mais chegados.

Na vida universitária e associativa sempre foi uma figura de destaque, vanguardeiro nas sociais e sempre orientado num puro censo de honestidade profissional. Com ele aprendi a dizer: Não sei, talvez uma das maiores lições que tenha aprendido. 

No Hospital Antônio Pedro exerceu todos os postos: A Chefia do Serviço de Cirurgia, a Direção do Pronto Socorro, a Chefia da Divisão Médica, A Direção do Hospital, a Presidência do Conselho Diretor. Nos momentos difíceis de 1961, quando o Hospital Antônio Pedro fechado pelos acadêmicos de medicina, por total falta de recursos da Prefeitura, é reaberto aos "trancos e barrancos", com a catástrofe do Circo Americano, é Almir chamado a dirigi-lo novamente, e todo o processo de transferência do Hospital para a Faculdade de Medicina, desencadeado então por aqueles eventos, encontra nele um fervoroso defensor.

Na Associação Médica chega à Presidência amplamente apoiado pelas correntes tradicionalistas e pela força jovem de então. Percorreu assim, em toda sua carreira, todos os pontos de acesso com denodo, perseverança, dedicação e justiça. Em 1969, somos chamados juntamente com Jairo Pombo do Amaral, Abílio Cláudio de Lauro Souza, Paulo César Filgueiras Rodrigues, Carlos Alfredo Bustamante Sá e Márcio Torres para atendê-lo vítima de hemorragia digestiva. Este grupo foi talvez, dos mais cirurgiões que tiveram o privilégio e a honra de terem trabalhado com ele, por circunstâncias especiais, aqueles que mais próximo dele permanecem, talvez por morarem em Niterói. Começou aí, uma luta inglória que levaria 56 dias, 4 intervenções cirúrgicas e finalmente, o falecimento de Almir Guimarães. 

Mesmo na morte permaneceu o seu espírito pioneiro, pois pela primeira vez enfrentávamos nós uma entidade que até hoje ceifa numerosas vidas, quais sejam as múltiplas ulceras de stress, desencadeadas por sepsis grave, com índice de mortalidade atualmente de 60%. E em 14 de julho de 1969, o Minuano por herança genética e carioca, plasmado fluminense, à semelhança de outro gaúcho, deixou a vida para entrar na história.

 

Biografia escrita pelo Acadêmico Guilherme Eurico Bastos da Cunha.

 
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