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 11/06/2018 - CONCORRIDA CERIMÔNIA DE POSSE
 
 

Dia oito de junho, o Teatro Eduardo Kraichete da AMF engalanou-se para concorrida Solenidade de Posse de Acadêmicos Titulares, elevação a Acadêmico Emérito e homenagem a Patronos de duas novas Cadeiras da ACAMERJ.

O Acadêmico Titular Leslie de Albuquerque Aloan ascendeu ao posto de Acadêmico Emérito e três novos Acadêmicos Titulares foram empossados: Prof. Marcos Raimundo Gomes de Freitas - Cadeira nº 13, Patronímica do Prof. Clementino da Rocha Fraga; Prof. Jo Yoshikuni Osugue - Cadeira nº 63, Patronímica do Prof. Roched Abib Seba; Profª. Tânia Cristina de Mattos Barros Petraglia - Cadeira nº 65, Patronímica do Prof. Antonio Carlos de Souza Gomes Galvão.

O evento, que teve como Mestre de Cerimônia o Acadêmico Wellington Santos, foi Presidido pelo Presidente da ACAMERJ, Acadêmico Luiz Augusto de Freitas Pinheiro, e secretariado pelo Secretário Geral, Acadêmico Elimar Antonio Bittar, contando na Mesa Diretora ainda com a presença das seguintes autoridades: General de Divisão Riyuzo Ikeda - Diretor do Patrimônio Histórico e Cultural do Exército, Almirante Paulo José Pereira Bringel, Sra. Neinha Freitas - Representante do Governador do Estado do Rio de Janeiro, Acad. Waldenir de Bragança - Presidente da Academia Fluminense de Letras e Acadêmico do Ano da ACAMERJ, Acad. Alcir Vicente Visela Chácar - Vice-Presidente Regional Sudeste da FBAM e Presidente do Conselho Científico da ACAMERJ, Acad. Omar da Rosa Santos - Orador Oficial da ACAMERJ e Presidente da Academia de Medicina do Rio de Janeiro, Acad. Tarcísio Rivello - Superintendente do Hospital Universitário Antonio Pedro - HUAP e Acadêmico Emérito da ACAMERJ, Sr. Ken Kondo - Cônsul-Geral Adjunto do Japão no Estado do Rio de Janeiro, Dr. Sidney Ferreira - Diretor do Conselho Federal de Medicina, Dr. Serafim Ferreira Borges - Segundo Vice-Presidente do CREMERJ, Sr. Takashi Mori - Vice Presidente da Renmei-Associação Cultural e Esportiva Nipo-Brasileira do Estado do RJ, Sr. Antonio Domingos Gomes - Presidente da Loja Maçonica de Valença, Dr. Mario Hiroyuki Hirata - Coordenador da Pós Graduação da USP USP, Sr. William Suzano de Almeida - Diretor Administrativo da Faculdade de Valença, Dr. Márius Seba - Neto do Patrono Roched Abib Seba, Dr. Ary César Nunes Galvão - Filho do Patrono Antonio Carlos de Souza Gomes Galvão, Profª. Rosário Dominguez Crespo Hirata - Representante da Universidade de São Paulo e Sra. Áurea Lucia Alves de Azevedo Grippa - Presidente da Regional Leste Fluminense da Sociedade de Pediatria do Estado do Rio de Janeiro - SOPERJ.



Após o Presidente dar por aberta a Solenidade, os empossados foram introduzidos no Teatro pelos Acadêmicos José Dutra Bayão e Luiz José Martins Romêo Filho, assumindo seus lugares à Mesa Diretora.

Executado o Hino Nacional Brasileiro, o Presidente da ACAMERJ fez breve alocução onde, além de saudar os empossados e homenageados da noite, destacou a importância de reuniões com respeito a tradições, com liturgias e rituais , que marquem o cavalheirismo das mesmas, mormente quando, apesar do acentuado progresso material e técnico-científico, há progressiva degradação dos costumes. 

Ato contínuo, o Acad. Elimar Antonio Bittar leu o termo de posse do Emérito e dos três Titulares, que o assinaram sob aplauso de plateia bem como o juramento feito a seguir.

As respectivas insígnias foram entregues pelo Presidente Luiz Augusto de Freitas Pinheiro com participação dos familiares:


- Acad. Emérito Leslie de Albuquerque Aloan - Sra. Cristina Peribanez


- Acad. Titular Jo Yoshikuni Osugue - Dra. Saeko Miyazato Osugue


- Acad. Titular Marcos Raimundo Gomes de Freitas - Maria Emma Rodriguez de Freitas


Tânia Cristina de Mattos Barros Petraglia - Dr. Benito Petraglia.


No transcorrer da Solenidade o Presidente, em nome da ACAMERJ, prestou homenagem aos novos Patronos de duas de quinze novas Cadeiras recém criadas:

- Roched Abib Seba - Cadeira nº 63

- Antonio Carlos de Souza Gomes Galvão - Cadeira nº 65.

O Sr. Marius Seba e sua irmã Soraya Seba receberam Medalha e Diploma de homenagem ao avô, Acad. Prof. Roched Abib Seba o mesmo acontecendo com o Dr. Ary Nunes Galvão que recebeu a homenagem a seu pai, Acad. Prof. Antonio Carlos de Souza Gomes Galvão.

Os representantes das famílias fizeram uso da palavra, agradecendo e lembrando fatos marcantes da vida de ambos.




Coube ao Orador Oficial da ACAMERJ, Acad. Prof. Omar da Rosa Santos, representar a entidade na alusão a todos os acontecimentos da noite bem como enaltecendo a vida de todas as personalidades honradas com homenagens. 



Os momentos finais foram reservados a palavras do Emérito e dos empossados como Acadêmicos Titulares. 

Seguindo, o Mestre de Cerimônias, Acad. Wellington Santos convidou a todos para recepção no Salão de Festas Aloisio Decnop Martins da AMF e o Presidente da ACAMERJ, Acad. Prof. Luiz Augusto de Freitas Pinheiro, agradeceu, mais uma vez, a presença de todos, registrou a importância do momento, e deu por encerrada a Solenidade.

Registrem-se as presenças dos seguintes Acadêmicos:

Alcir Vicente Visela Chácar; Antonio Chinelli; Elimar Antonio Bittar; Gesmar Volga Assef Haddad; Hiram Silveira Lucas;Honomar Ferreira de Souza; José Dutra Bayão; Luiz Augusto de Freitas Pinheiro; Luiz José Martins Romêo Filho; Maria de Fátima Bazhuni Pombo March; Omar da Rosa Santos; Renato de Souza Bravo;Selma Maria de Azevedo Sias; Tarcísio Rivello de Azevedo; Theophilo José da Costa Neto; Waldenir de Bragança; Wellington Santos.

Mais de 140 pessoas assinaram o livro de presença. Os discursos escritos constam abaixo.


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DISCURSO DO PRESIDENTE DA ACAMERJ

"Senhoras e Senhores

Compete ao Presidente, em Solenidade como esta, dizer algumas palavras em referência ao que ela se destina.

Nesta noite teremos posses e homenagens, com espaço para que cada empossado, homenageado ou representante possa se expressar em relação ao momento e, ainda, a palavra do Orador Oficial que, em nome da ACAMERJ, a todos e a tudo fará as devidas referências.

Assim sendo, serei breve. Do vosso tempo, tomarei apenas o necessário para que a Cerimônia não ultrapasse os limites do razoável, face às múltiplas atividades.

Como Presidente, representando a Diretoria, agradeço a presença de todos que vieram abrilhantar este momento, certamente de muito significado e emoção para os que nele estão envolvidos.

Refiro-me à elevação à categoria de Acadêmico Emérito do prezado e ilustre Confrade Leslie de Albuquerque Aloan, à posse como Acadêmico titular dos eminentes Professores Jo Yoshikuni Osugue, Marcos Raimundo Gomes de Freitas e Tânia Cristina de Mattos Barros Petraglia; bem como à homenagem a dois ilustres Acadêmicos já falecidos, e que agora emprestam a força e o brilho de seus nomes à duas de quinze novas cadeiras criadas com a reforma estatutária implementada em 2013. Refiro-me aos Patronos das Cadeiras de número 63 - Roched Abib Seba - e de número 65 - Antônio Carlos de Souza Galvão. Com esta Solenidade, preparada com muita dedicação e esmero, com a competente assessoria das Secretárias da ACAMERJ, Alita Baptista dos Santos e Carolina da Conceição Nascente, a Academia de Medicina do Estado do Rio de Janeiro pretende prestar justa e merecida homenagem àqueles que dedicaram toda uma vida a educar e promover a cultura a seus semelhantes, mormente em um momento em que, a despeito do progresso material, da evolução técnico-científica, nossa sociedade carece de valores virtuosos, e os costumes se degradam, numa orgia carnavalesca de práticas desonestas, sentimentos ambíguos, concepções esdrúxulas, relacionamentos hipócritas, desacoplamento do discurso com a prática, enfim, condutas e atos que carecem ser cinzelados pelo camartelo que fere, que quebra e amolda consciências e comportamentos, transmutando-os em condutas e atos virtuosos já referidos anteriormente.

- Serão esses objetivos alcançados?

- Não tenho resposta, porém se nada fizemos, nada mudará. Algo sendo feito, fica uma esperança.

Por essas razões, desde nossa posse para a gestão 2016-2018, temos pautado nossa conduta em priorizar virtudes como: polidez, fidelidade, prudência, temperança, coragem, justiça, generosidade, simplicidade, tolerância, compaixão, amor, etc.

Razão disso, nossas reuniões e cerimônias revestem-se sempre de culto às tradições e rituais, obediência a liturgias e respeito às criaturas-seres ou coisas.

MUITO OBRIGADO."

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DISCURSO DO ACAD. LESLIE DE ALBUQUERQUE ALOAN

Ilmo. Sr. Presidente da ACAMERJ, Prof. Luiz Augusto de Freitas Pinheiro,

Ilmas. Confreiras e Ilmos. Confrades,

Autoridades presentes,

Amigos e convidados

Era o dia 07 de abril de 2010 aqui na cidade de Niterói e neste mesmo Teatro.

Chovia, e eu iniciava assim o meu discurso de posse como Membro Titular:

"Quero agradecer com alegria a vida,

A alegria de sentir tão perto ...

O final da estrada percorrida,

Em passeio lúdico e incerto ...                                

E na mágica hora da chegada,

Sentir, que aprendi na caminhada."

                                    (Leslie Aloan)

Continuei:

"Hoje é um dia diferente. Posso afirmar que poucas vezes em minha vida tive um momento tão grandioso. É um momento de júbilo, de satisfação e, sobretudo, de gratidão.
Cheguei até aqui trazido por um objetivo sincero e único: e diante de todos, estou para agradecer.

É com grande honra que assumo a Cadeira N. 13 desta Academia Fluminense de Medicina.  Isto me motiva agora e adiante, me embala neste momento nobre, sentimento de homenagem, de quem germina no alfobre, a vontade do Fazer...Me orgulho de ter ocupado a Cadeira que pertenceu ao nosso confrade Luiz José Martins Romeo Filho na sua passagem a emerência. E Hoje muito me alegra que esta mesma Cadeira seja ocupada por alguém com um curriculum tão robusto como Marcos Raimundo Gomes de Freitas.

            Retribuir é continuar a caminhar motivado, revigorado com o reconhecimento dos membros desta Casa.

Quero dizer neste momento nobre,

Que me sinto ainda no alfobre,

Germinando em acalmia ...

N´uma encantada abadia,

Cantando em harmonia,

Com a vida que me embala e canta,

Nesta terna travessia.

Com a tranquilidade do "ter feito" ...

Não o  movimento perfeito,

Mas no limite pessoal...

Fica a apreensão,

De quem clama...

Posto  que é chama,

A perfeição.

Hoje, ao alcançar a emergência, entendo que pude colaborar com nosso sodalício dentro das minhas possibilidades,

 E nesta conjuntura de agradecimentos, tento entender os movimentos que se sucederam durante este período de atividades na ACAMERJ como Membro Titular. Tive a honra de participar de vários Simpósios e Conclaves patrocinados por nossa Academia, no Estado, no Brasil e no Exterior. Presidi o Conselho Científico e fui chamado para presidir a Comissão de Patrimônio da ACAMERJ. Quero agradecer as indicações dos confrades e confreiras - companheiros, é grande o meu orgulho em participar deste sodalício.

            Quero dedicar este momento em que ascendo a emérito, àqueles que me apresentaram a esta Casa. Ao Acadêmico Gerson Cotta-Pereira (in memorian) e sua querida esposa e companheira Eliana. Amigos certos de sempre. Quero agradecer também ao Ilmo. Acadêmico Pedro Aleixo, amigo de longa data e de favores inesquecíveis ao lado de sua esposa Norma Aleixo ( in memorian).

Os momentos que desfrutei na Titularidade foram mágicos e inesquecíveis e que se perpetuam e se fortalecem a cada momento. Obrigado aos amigos desta Casa que me acolheram.

Quero agradecer a minha esposa Cristina, companheira compreensiva. Aos meus filhos, Marcio com 45 anos, formado em Ciências Aeronáuticas pela PUC-RS, atualmente Comandante internacional da Companhia Aérea Azul, e Rafael com 37 anos, formado em Desenho Industrial pela PUC-Rio e também em Música pela UNIRIO, cursando atualmente o mestrado em Buenos Aires na Untref.  Eles são o meu orgulho e meus melhores amigos.

Meus pais, Miguel (in memorian) meu exemplo de pai, e Judith que em seus 92 anos, aqui presente,  ainda se dedica e me orienta nos mistérios da vida.

 

Quero lembrar Jorge Amado, em conversas com Alice Raillard: "Quando falo de Gabriela, tenho muito a dizer. Não propriamente sobre Gabriela, mas em torno."

Portanto, os agradecimentos pontuais falam além  deles mesmos, são densos de emoções e encanto. São mágicos, são luzes, são canto.

Sras. e Srs.

Se me permitirem retroceder 2 mil anos, e alcançar Marco Tulio Cícero e nos próximos 3 minutos relatarei uma pequena história. Pequena, mas grande o suficiente para reacender a procura de um objetivo para o nosso país.

Em 63 a.C., Marco Túlio Cícero, ocupava o posto de cônsul, o cargo máximo do Senado, sendo o maior filósofo romano de todos os tempos. Veio ao seu conhecimento que um outro senador, Lúcio Catilina, um nobre arruinado tramava contra o poder de Roma. Passou então, a proferir uma série de quatro pronunciamentos naquele Senado. Todos os quatro foram compostos para denunciar explicitamente Lúcio Sérgio Catilina. A intervenção de Cícero se tornou um clássico da política e passou a ser invocada ao longo dos últimos 2 mil anos sempre que um homem público atentava contra o interesse geral da população. Entretanto, parece que os homens públicos mudaram e com eles a ética reguladora de seus atos. O mais famoso dos discursos de Cícero fala: "Até quando, enfim, ó Catilina, abusarás da nossa paciência? Por quanto tempo ainda este teu rancor nos enganará? Até que ponto a tua audácia desenfreada se gabará?? (Livro I, cap. I)

Lucio Catilina, já afastado do Senado, morreu pouco depois em batalha inglória.

As Catilinárias são consideradas um símbolo da vitória da moral e da ética sobre a corrupção na vida pública.  Foram 14 anos de resistência na Roma antiga.

No Brasil, após a promulgação da nova constituição, já lutamos o dobro deste tempo. Há 30 anos perseguimos os mesmos princípios de Cícero. Sem sucesso ou alento.

Na República somam-se 130 anos de esperanças desencantadas. Os escândalos antes milionários passaram pelas décadas impunes e hoje se transformaram em bilionários.

No entanto, nunca desistiremos de nosso sonho possível: um Brasil ético!

Acredito que já começam a surgir os nossos Cíceros, com discursos e atos, que com certeza ultrapassarão os 14 anos de Cícero, mas torna-se emblemática a adesão do sofrido povo brasileiro. Com certeza seremos mais de 200 milhões de discursos e atitudes.

Até a vitória da ética e da cidadania !!!

 Muito Obrigado! "

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DISCURSO DO ACAD. MARCOS RAIMUNDO GOMES DE FREITAS

Muito honrado, agradeço aos membros da diretoria da ACAMERJ a minha aceitação como membro desta associação, das mais prestigiadas e conhecidas em nosso país. Mais ainda, por ocupar a cadeira cujo patronato é do professor Clementino da Rocha Fraga. Fui aluno por vários anos de seu filho Clementino Fraga Filho e trabalhei no HU, que hoje tem seu nome, e sei do valor de conhecimento, da moral e principalmente da capacidade de ensino, liderança e chefia da família Fraga.

Clementino Fraga, originário da Bahia, chegou a professor titular de clínica médica, sendo conhecido pela profilaxia da cólera em navio em Salvador.    Migrou para o Rio de Janeiro ocupando a cadeira de Clínica Médica da UB, hoje UFRJ. Antes, já havia trabalhado nesta cidade com Osvaldo Cruz, na época da erradicação da febre amarela. Na direção do departamento de saúde pública da cidade do Rio de Janeiro, de 1928 a 1929, extinguiu o segundo surto de febre amarela nesta cidade. Após, voltou-se para a tuberculose, reformando o Hospital São Sebastião, onde todo ano dava curso de tuberculose.

Seu prestígio o fez eleito por duas vezes deputado federal. Condenou o burocratismo médico, a cultura da impersonalidade, o gosto da publicidade a exuberância dos títulos de empréstimos e a caça escandalosa à clientela. No final da vida passou a reler os clássicos e as escrever os ensaios literários. Segundo Anatole France, "Clementino Fraga era rude e bom, entusiasta e trabalhador, excelente operário e de grande honestidade".

Não posso deixar de falar sobre minhas origens. Vindo das Gerais ingressei no Liceu Nilo Peçanha, onde cumpri todo o curso ginasial e científico. Aos 17 anos ingressei na FM da UB no antigo prédio da Praia Vermelha, destruído na ditadura. Alegavam os dirigentes militares que fosse foco de comunistas. Frequentei a Santa Casa de Misericórdia, no serviço de clinica médica do professor Clementino Fraga Filho. Logo após, ingressei no Instituto de Neurologia Deolindo Couto, ainda chefiado por este grande mestre. Nesta época, pude participar da vida cultural da cidade do Rio de Janeiro, pois eram os anos de chumbo e dedicava-me a assistir peças de teatro, ao cinema novo brasileiro, aos clássicos europeus e frequentar o ISEB. Com James Pitágoras, fundamos o primeiro cine clube de nossa faculdade.  Convidado pelo professor Bernardo Couto ingressei no HUAP como auxiliar de ensino, galgando todos os degraus, chegando a Professor Titular em 1994, após concurso publica. Dediquei 80% de meu trabalho ao serviço público. Fui chefe de serviço por 42 anos. Tentei dar o máximo de mim na condução da neuroliga da UFF.  Consegui com muitos pedidos aumentar o número de docentes, médicos e outros profissionais de saúde para o serviço. Com auxilio dos outros elementos, incrementamos a residência médica, criamos curso de especialização, mestrado e doutorado. Aumentamos o número de salas de ambulatórios, leitos de enfermaria, acrescentamos setor de eletrofisiologia com aparelhos de eletromiografia e eletrencefalografia, de inicio doados pela Petrobrás.. Fomos o segundo serviço no Brasil a dividir a neurologia em setores especializados, como cefaleia, epilepsias, distúrbios dos movimentos, doenças neuromusculares, etc. Isto permitiu melhor aprimoramento dos docentes, aprendizado para residentes e, sobretudo, atendimento especializado aos pacientes. Comparecemos a todos os congressos brasileiros da especialidade desde 1970.  Durante alguns, nossos trabalhos eram em maior número. Ingressamos na Sociedade Europeia e na Academia Americana de Neurologia, frequentando os conclaves anuais e algumas vezes fazendo palestras. Tudo em interesse da Neurologia Brasileira e da Universidade Federal Fluminense. Segundo Pessoa "a persistência é o caminho do êxito". Porem, nem tudo são flores. Infelizmente, no ocaso de minha carreira, após minha aposentadoria compulsória, na UFF, contestei concurso armado por docente de neurologia, para certos candidatos a professor. Durante minha chefia pautei-me pela honestidade e rigor na condução do serviço e dos concursos. Esta denuncia e a rivalidade daqueles que se diziam meus amigos e até discípulos, impediu-me de continuar com minhas atividades, sem remuneração, pois achava que tinha uma dívida com a comunidade de nosso país, pretendendo continuar atendendo ambulatório de neuropatias periféricas, ensinando internos e residentes. Assim, foi-me comunicado por telefone por ex companheiro e ex discípulo, que não mais poderia atender ambulatório. Felizmente, tendo amigos verdadeiros no serviço de neurologia do HUCCF da UFRJ, através de seu ex- chefe Maurice Vincent e da atual chefe Dra Ana Lucia Rosso, fui aceito naquela casa e hoje tento dar o máximo de meus conhecimentos, para contribuir com aquele serviço na universidade que me formei, onde fiz o mestrado e doutorado.

Durante minha careira tive vários mestres, porem três sobressaíram-se, tornando-se meus amigos. No Instituto de Neurologia, cito o professor Antonio Rodrigues de Mello, considerado um dos maiores neurologistas do país e um dos poucos conhecidos no exterior por seus trabalhos científicos. Mello, além de me ensinar a especialidade, mostrou-me a vivencia médica séria, honesta e desprovida de vaidades. Era humilde, sem subserviência, honesto, não preso aos bens materiais. Em Londres estive com o professor Peter Thomas no Royal Free Hospital. Thomas, considerado pai das Neuropatias Periféricas, era rodeado por neurologistas de vários países. Também não era afeito a títulos, apesar de ter ser agraciado pela rainha como "Sir". Em Paris, aprendi a ver patologia de nervos periféricos com meu amigo Professor Gerard Said, no Hospital de Bicêtre. Seu serviço era de excelência e todo ano, após meu estágio, lá ficava cerca de15 dias para me reciclar nas afecções dos nervos.

Não podia deixar de agradecer aqueles que me colocaram no mundo e aqueles que me cercam até hoje. Meu pai funcionário de Banco do Brasil ocupou sempre cargos de chefia, inaugurando várias agencias em Minas Gerais..Dedicado ao extremo, abria e fechava o banco, Aposentou-se na compulsória e sua saída levou-o a quadro depressivo. Minha mãe professora de ensino médio era uma verdadeira visionária, enxergava anos a frente. Colocou-nos precocemente no aprendizado de línguas, musica e sempre incentivando-nos ao conhecimento. Meus dois irmãos primaram pela dedicação a seus afazeres, o primeiro desembargador e professor titular de Direito Civil na UFF e o segundo economista, ocupando cargos de chefia em vários governos. Ninguém enriqueceu. Minha irmã apesar de aposentada como professora do estado, ainda milita na educação.

Tenho esposa, três filhos e sete netos. Maria Emma minha companheira de mais de 40 anos, espanhola, com a determinação deste povo ibérico. soube educar as crianças e mesmo formada em professora de línguas, após a aposentadoria tornou-se advogada. Meus filhós Gabriel, Andréa e Marcela, sem meu incentivo dedicaram-se a medicina e a neurologia e hoje discutimos nossas dúvidas. Deram-me sete netos Igor, Theo, Bruna, Henrique, as gêmeas Gabriela e Carolina e o mais novo Vicente. Todos abaixo de oito anos alegram-me em ocasiões diversas. De acordo com Ventura, "netos são tão bons, que se soubesse não teria filhos, ia direto para os netos"

Apesar de ser um privilegiado na sociedade, pois tive oportunidade para estudar, oriundo que era de pais de classe média, não estou todo satisfeito. Segundo Saramago "... o coração do homem é um eterno insatisfeito, e o simples dever cumprido, afinal não dá tanta satisfação como nos vem dizendo os que com pouco se contentam...". Pertencendo a humanidade não posso ficar contente enquanto houver fome no mundo, destruição de países, guerras desnecessárias, como da Síria, Palestina, Afeganistão, pobreza extrema na África, construção de armas atômicas e destruição da natureza.

No Brasil assusta-me a diferença de classes, grande parte em pobreza absoluta, a corrupção desenfreada, a má assistência à saúde. Crescem os hospitais privados, alguns dotados de alto luxo e os hospitais públicos, sobretudo os universitários, cada vez mais pobres. Deveria ser o contrário. Não há lugar para assistência médica híbrida. Aos privados não interessam o progresso dos públicos. Vejam os países europeus onde toda a saúde é publica, e vejam a America do Norte, excetuando  o Canadá, onde imigrantes, pobres e até classe média não têm acessos à saúde e os profissionais dos privados só visam  o lucro. Ainda dizem o que é bom para os Estados Unido é bom para o Brasil. Assim, preocupa-me a saúde do Brasil onde as verbas públicas para saúde são cada vez mais escassas, enquanto que temos o dobro das doenças dos países desenvolvidos, isto é a cardiovasculares, degenerativas e as comuns aos países abaixo do equador: infecciosas, parasitárias e carenciais.

A educação, pilar mestre de um país está abandonada. A escola pública quase não existe, a proliferação de escolas e faculdades privadas cresce em ritmo incessante com preços absurdos, e com ensino duvidoso. É importante  saber inglês, mas também a verdadeira história do Brasil, sua literatura, seus artistas, seu folclore sua diversidade cultural, a farsa da abolição da escravatura, a história da cultura da América Latina e africana. As faculdades particulares só visam o lucro. O ideal é que o ensino em todos os graus seja exclusivamente publico e gratuito. Vejam que um candidato ao cargo máximo da república, disse que, se for eleito, vai crucificar Paulo Freire, educador e criador de teoria de ensino, reconhecida em todo mundo. Não podemos perder nossa identidade cultural. A elite é egoísta, as passeatas só são feitas em áreas ricas. A maioria negra só tem acesso a subempregos. A população pobre em nosso estado daqui a anos estará maior do que a das outras classes, tendo estas últimas que construir fortalezas em torno de suas casas, pois a fome desencadeia roubo, assaltos, e quando alguém defende os necessitados é assinada violentamente. As igrejas proliferam com uma religião elitista, que quando pode subtrai dos inocentes, parte de seus salários para construir templos luxuosos e engordando o bolso de seus mandatários. Desta maneira, penso que entrando nesta academia terei um meio de difundir meus pensamentos, e procurar defender uma melhor saúde e educação para nosso povo, não esquecendo que fazemos parte da humanidade, dos outros continentes e, sobretudo da América Latina tão bem cantado nas palavras de Gabriel Garcia Marques, Eduardo Galeano. Gabriela Mistral, Julio Cortázar e outros. Termino minha curta fala, premida pelo tempo, com uma frase de Neruda: "... cada ser humano que morre, eu morro um pouco também...".

 
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